Quem Somos

Nos últimos 20 anos tentei encontrar uma forma de quebrar o silêncio sobre incesto e comportamentos abusivos.

De onde vem essa premência? Aos 18 anos tive uma relação incestuosa, ele 30 anos mais velho.

Este quadro tem sabor de presente amargo. Demorei tempo para entender esse olhar triste. Aos 5 anos, de barco para a Madeira, senti prazer físico: a minha 1ª experiência de abuso. Em 2019 doei ao Museu Teixeira Lopes, da família do pintor. Nesse ano decidi curar a dor. Pensava que o apoio de terapia durante tantos anos tinha cicatrizado. Ao ter oportunidade de falar com a Mãe sobre a realidade do incesto e do abuso, físico e emocional, tive de recomeçar um caminho sofrido nas minhas sombras.

Por sugestão do estimado psiquiatra Manuel Viana, tive de sair da minha verdade.

E de mergulhar no grande amor e bem real entre a mãe madeirense e o pai cabo-verdiano que me gerou e aos meus quatro irmãos.

Ao imaginar a vida desses dois seres tão diferentes, tive de olhá-los como se fossem pessoas ainda inocentes, muito antes do encontro de 1936 em Lisboa.

A vida da mãe muito mais fácil e feliz – veio da Madeira licenciar-se em piano no Conservatório. A do pai mais difícil e isolada – veio de Cabo Verde sózinho aos 10 anos para fazer o liceu e depois tirar a licenciatura no ISCPU.

É tão difícil evitar julgar os outros.

A questão é ‘A linha que separa o bem do mal divide o coração de cada ser humano.

E quem está disposto a destruir um pedaço do seu proprio coração?

Durante a vida de qualquer coração esta linha continua a mudar de lugar; às vezes é empurrada para um lado pelo exuberante demónio e outras vezes muda para dar espaço suficiente para o anjo do bem’ (Aleksandr Solshenitsyn, O Arquipelago Gulag).

Até 2020 respeitei os pedidos de ‘Agora Não’, por causa do impacto que poderia ter na vida de pessoas queridas.

O que aprendi entretanto? Perdoei. Esquecer NUNCA.

Durante anos alimentei a raiva e a incompreensão, deixei que manipulassem o meu silêncio.

Então dei o salto para acreditar que o caminho é POR AMOR.

Passei a gostar de dançar com as sombras deste jogo da vida. Nestas fotografias consigo ver amor, onde antes só via dor.